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 Tem vezes que tudo que eu mais quero é poder escrever uma página em branco e sentir todo o encanto de começar outra vez. As linhas vão aumentando e as palavras surgindo em forma de borracha, e tudo que escrevo, logo se apaga.
Recomeço outro parágrafo num topo de uma página qualquer. As linhas, sem forma, sem cor e nem cheiro, o papel a caneta e eu. Movimentos contínuos em uma página em branco sem fim, um texto qualquer sem história nenhuma, tão interminável quanto a imensidão da ausência de limites. A própria renúncia de escrever o nada, sem mais para se dizer. A linha se perde em encanto. É assim como minha cabeça funciona, um imenso mar de páginas em branco, contendo tudo aquilo que já vi e vivi.
O branco do papel, junto com a loucura latente em todas aquelas páginas de história nenhuma, revela toda a profundidade de um oceano repleto de nada. Ilustra exatamente o passado, presente e futuro, do que sou e do que vejo.
Revejo meu caderno e toda sua branquidão como uma nuvem que se dispersa no ar. É de se imaginar que todas essas vidas contidas nessa falta de ser, ao meu ver também desapareça.
Logo não há mais caneta, meu caderno mudo, muda então todo meu ser. Já nem sei mesmo ler, também não seria preciso. Naquele meu caderno as páginas em branco não querem dizer nada. Deixe meu caderno de lado, lá nada é assim tão importante, mas se você achar interessante algum dia poder me ler, olhe nos meus olhos.

Ike Ferreira